Por que JavaScript se chama JavaScript? A história do nome

Thiago Nunes Batista
Escrito por: Thiago Nunes BatistaPublicado em:
Por que JavaScript se chama JavaScript? A história do nome

JavaScript não é Java, não é uma versão do Java e não foi feita pela empresa do Java. Mesmo assim, quase todo iniciante em programação tropeça nessa pergunta: se as duas linguagens não têm relação, por que o nome é tão parecido?

A resposta passa por uma disputa entre navegadores, por um protótipo escrito às pressas em 1995 e por uma marca registrada que, mais de 30 anos depois, ainda está no meio de um processo. Se preferir assistir, o vídeo acima conta essa história em quatro minutos. Aqui o texto vai mais fundo, com datas, comparações e as fontes.

Por que a Netscape precisava de uma linguagem para o navegador?

Em 1995, o Netscape Navigator era o navegador mais usado da internet, e a Microsoft estava chegando com o Internet Explorer. Esse período ficou conhecido como a guerra dos navegadores. Para ficar na frente, a Netscape queria páginas que reagissem ao que a pessoa fazia, em vez de só exibir texto e imagem.

Isso exigia uma linguagem de script, ou seja, uma linguagem simples para escrever pequenos programas que rodam dentro da própria página. A Netscape contratou Brendan Eich para colocar o Scheme, uma linguagem de origem acadêmica, dentro do navegador. Só que a diretoria mudou o pedido: a nova linguagem deveria ter uma sintaxe parecida com a do Java, que estava em alta. E o prazo era curtíssimo.

Quanto tempo Brendan Eich levou para criar o JavaScript?

A primeira versão saiu em cerca de 10 dias, em maio de 1995. O protótipo se chamava Mocha e era para ser apenas uma demonstração interna.

Vale uma ressalva. Os 10 dias valem para o protótipo, não para a linguagem como a conhecemos. Ela foi se ajustando nos meses seguintes e continuou evoluindo por décadas. Mas a pressa daquele começo explica várias esquisitices que sobrevivem até hoje.

Por que typeof null retorna "object"?

O exemplo mais famoso dessas marcas está no console de qualquer navegador:

typeof null; // "object"

null não é um objeto. Esse resultado é um bug da primeira implementação, ligado à etiqueta de tipo que a linguagem usava para identificar objetos. Ele nunca foi corrigido porque consertar hoje quebraria código que já existe e depende desse comportamento. Houve uma proposta de correção, e ela foi recusada justamente por isso.

De Mocha a LiveScript e JavaScript: como o nome mudou duas vezes

Em setembro de 1995, a linguagem apareceu numa versão beta do Navigator 2.0 já com outro nome, LiveScript. Naquele momento o Java da Sun Microsystems era a linguagem mais comentada do mundo, e a Netscape tinha acabado de fechar uma parceria com a Sun.

Em dezembro de 1995, as duas empresas anunciaram juntas que o LiveScript passaria a se chamar JavaScript. O próprio Brendan Eich descreveu a troca como uma jogada de marketing da Netscape, para aproveitar a fama do Java. Funcionou: o nome pegou. Também criou uma confusão que dura até hoje.

Java e JavaScript são a mesma coisa?

Não. Olhando o código, as duas parecem primas: chaves, ponto e vírgula, if e for. Por dentro, são bem diferentes.

JavaJavaScript
ExecuçãoCompilado, roda na máquina virtual (JVM)Nasceu para rodar dentro do navegador
TiposVocê declara o tipo de cada variávelO tipo é decidido na hora, durante a execução
HerançaBaseada em classesBaseada em protótipos
int idade = 30; // Java: o tipo é obrigatório
let idade = 30; // JavaScript: o tipo vem do valor

A relação entre as duas é a mesma que existe entre pão e pão-duro: o começo da palavra é igual, e a semelhança acaba aí. O nome parecido virou um problema para a concorrência, e foi isso que levou a Microsoft a fazer o movimento seguinte.

O que são JScript e ECMAScript?

Quando a Microsoft quis a mesma linguagem no Internet Explorer, não podia usar o nome JavaScript, porque a marca pertencia à Sun. Em 1996, lançou no Internet Explorer 3 uma versão própria chamada JScript, com diferenças em relação à da Netscape. Duas versões diferentes da mesma linguagem eram receita de site quebrado.

Para resolver, a Netscape levou a linguagem à Ecma, uma organização de padrões, em novembro de 1996. A primeira edição do padrão, o ECMA-262, saiu em junho de 1997, com um nome que ninguém queria: ECMAScript. O nome foi um meio-termo político entre as empresas envolvidas. Brendan Eich chegou a dizer, num comentário no Bugzilla da Mozilla, que ele soava como doença de pele.

É daí que vem o "ES" de ES6, que é o ECMAScript 2015, publicado em junho de 2015. De lá para cá, o padrão ganhou uma edição por ano. O padrão resolveu a confusão técnica, mas não a questão da marca.

De quem é o nome JavaScript hoje?

A marca "JavaScript" foi registrada pela Sun. Quando a Oracle comprou a Sun, em janeiro de 2010, ela herdou o registro. A Oracle não vende nenhum produto chamado JavaScript.

Em setembro de 2024, uma carta aberta liderada por Ryan Dahl, criador do Node.js e da Deno, pediu que a Oracle liberasse o nome. Passou de 14 mil assinaturas, incluindo a de Brendan Eich. A Oracle recusou, e em novembro de 2024 a Deno pediu ao USPTO, o escritório de marcas dos Estados Unidos, o cancelamento do registro.

O processo andou assim:

  • Em junho de 2025, o tribunal de marcas (TTAB) rejeitou a alegação de fraude da Deno. Ficaram de pé os argumentos de que o nome é genérico e de que a marca foi abandonada.
  • Em agosto de 2025, a Oracle apresentou sua resposta, negando esses argumentos.
  • Ao longo de 2026, as partes pediram prorrogações de prazo em sequência.
  • Em 28 de agosto de 2026, o processo foi suspenso a pedido da Oracle, com consentimento da Deno, enquanto as duas partes negociam um acordo.

Status conferido em 5 de novembro de 2026: no registro público do TTAB (processo 92086835), o caso continua suspenso para negociação de acordo, sem decisão final. O texto vai ficar desatualizado se isso mudar, então vale olhar o link nas fontes.

Resumindo

JavaScript se chama JavaScript por marketing. Em dezembro de 1995, a Netscape trocou o nome LiveScript para pegar carona no sucesso do Java, numa parceria com a Sun. As linguagens são diferentes por dentro, e o nome emprestado nunca foi devolvido: hoje a marca é da Oracle, que herdou o registro da Sun, e o futuro do nome está num processo suspenso para negociação.

Este artigo faz parte da série O nome por trás do código, no canal do YouTube.

Fontes