Por que Linux se chama Linux? A história do nome Freax, Unix e GNU

O Linux está no seu Android, por trás de quase todo site e nos supercomputadores mais rápidos do mundo. Mesmo assim, o criador dele não queria esse nome. Linus Torvalds achava "Linux" egocêntrico demais e escolheu outro: Freax.
Então como o nome Linux foi parar no projeto? A resposta envolve um sistema dos anos 1960, um professor que ficou bravo, um voluntário que mexeu numa pasta de servidor na Finlândia e uma disputa de marca registrada.
De onde vem o "x" do nome Linux?
O "x" vem do Unix, um sistema operacional criado em 1969 na Bell Labs (AT&T) por Ken Thompson, Dennis Ritchie e colegas, segundo a história do Unix. Um sistema operacional é o programa que faz o computador funcionar, como o Windows. O nome Unix, que antes era "Unics", foi um trocadilho com o Multics, um sistema grande e complicado do qual a Bell Labs tinha saído.
O Unix foi um sucesso, mas a AT&T licenciava o código, as licenças ficaram caras e ninguém podia redistribuí-lo livremente. A imagem que uso no vídeo é a de um carro alugado, caro e com o capô trancado. O "x" virou uma espécie de sobrenome dos sistemas inspirados nele: Minix, Linux e vários outros.
O que é o GNU e por que ele não tinha kernel?
Em 27 de setembro de 1983, Richard Stallman anunciou o projeto GNU, com a ideia de montar um sistema livre, que qualquer pessoa pudesse abrir, estudar e modificar. O nome é uma brincadeira: GNU quer dizer "GNU's Not Unix" (GNU não é Unix), uma sigla que tem ela mesma dentro.
Em 1991 o GNU já tinha quase tudo de um sistema completo: o compilador GCC (1987), que traduz código em programa, o editor Emacs e o shell Bash (1989). Faltava o kernel, o núcleo que conversa com as peças do computador (memória, disco, teclado). O kernel do GNU, o Hurd, ainda não estava pronto. Na metáfora do carro, o GNU tinha montado quase tudo, mas faltava o motor.
Quem criou o Linux e por quê?
O motor veio de onde ninguém esperava. Em janeiro de 1991, Linus Torvalds, um estudante de 21 anos da Universidade de Helsinque, comprou um PC com processador 386. Ele usava o Minix, um sistema que o professor Andrew Tanenbaum criou em 1987 para dar aula e cuja licença restringia a redistribuição.
Incomodado com as limitações, Linus começou a escrever o próprio kernel, só por diversão. Em 25 de agosto de 1991 ele avisou no grupo comp.os.minix, um fórum da época, que estava fazendo um sistema operacional livre e que era só um hobby, sem a pretensão de ficar grande e profissional como o GNU. Faltava só uma coisa para publicar o código: um nome.
Por que o Linux quase se chamou Freax?
O nome que Linus queria era Freax, uma mistura de "free" (livre), "freak" (esquisito) e o "x" do Unix. Ele chegou a pensar em "Linux", mas achou o nome metido demais, porque ia carregar o primeiro nome dele.
Em setembro de 1991 ele mandou o código para o servidor ftp.funet.fi (a história está no Linuxiac), o computador onde as universidades finlandesas deixavam programas para baixar. Ari Lemmke, um dos administradores voluntários do servidor, não gostou de "Freax" e criou a pasta com outro nome: linux. A versão 0.01 foi publicada ali dentro, em 17 de setembro de 1991. Linus não brigou pelo nome, e ele pegou.
O Freax não sumiu por completo. Ele ficou num comentário do Makefile do kernel daquela primeira versão:
# Makefile for the FREAX-kernel.
Conferi esse trecho em 5 de novembro de 2026 numa cópia da versão 0.01. Linus também gravou um áudio explicando como pronuncia o nome (algo como "Línux", com "i" curto), que circulou junto com o código.
O que foi a briga entre Tanenbaum e Torvalds?
Junto com o nome veio a primeira briga pública. Em janeiro de 1992, o professor que criou o Minix publicou uma mensagem com o título "LINUX is obsolete" (o Linux é ultrapassado). O argumento técnico era que um kernel moderno deveria ser um microkernel, um motor de peças separadas, e o do Linux era monolítico, um bloco só. Tanenbaum ainda brincou que, se Linus fosse aluno dele, não tiraria nota alta.
Essa discussão ficou conhecida como o debate Tanenbaum–Torvalds. Enquanto ela acontecia, o Linux mudou de licença: passou a usar a GPL, a licença do GNU que deixa qualquer um usar, mudar e repassar o código, a partir da versão 0.12, em 1992. Antes disso a licença própria proibia uso comercial. Com a GPL, o kernel de Linus encaixou no sistema do GNU, e o carro finalmente andou.
Linux ou GNU/Linux?
Como o sistema que as pessoas usam é a soma do kernel com as ferramentas do GNU, a Free Software Foundation e Richard Stallman pedem até hoje que o sistema completo seja chamado de GNU/Linux. Na prática, a maioria das pessoas diz só Linux, e "Linux" tecnicamente nomeia o kernel. As duas formas aparecem em livros e distribuições, e a escolha é questão de preferência.
De quem é a marca Linux?
A briga mais perigosa pelo nome veio de fora. Em 1995, um americano chamado William R. Della Croce Jr. registrou "Linux" como marca nos Estados Unidos sem ter escrito uma linha do código e passou a cobrar 10% de royalties de quem vendia o Linux em CD. A comunidade e algumas empresas foram à justiça, e em 1997 a marca foi transferida para Linus Torvalds.
Conferi em 5 de novembro de 2026: segundo a Linux Foundation, Linus continua sendo o dono da marca no mundo todo, e a fundação é a licenciada exclusiva que administra os sublicenciamentos. O nome que ele achava metido demais é dele, por lei.
O Unix também é marca registrada, da The Open Group, que mantém uma certificação própria. Quase nenhuma distribuição Linux tem o selo, embora haja exceções, como o EulerOS, da Huawei.
E depois do Linux?
Catorze anos depois do Linux, em abril de 2005, Linus criou outra ferramenta e dessa vez escolheu o nome sozinho: Git. A história desse nome é o próximo episódio da série.
Resumindo
O Linux tem esse nome porque quem administrava o servidor onde ele foi publicado não gostou de Freax e criou a pasta linux. Linus Torvalds achava o nome metido demais, mas ele pegou, e o "x" ligou o sistema à família Unix. O nome ainda passou por uma tentativa de registro por um terceiro e voltou para Linus em 1997. Hoje ele é dono da marca, e a Linux Foundation cuida dela.
Este artigo faz parte da série O nome por trás do código, no canal Código ao Ponto.
Fontes
- History of Unix (Wikipedia)
- Initial announcement of the GNU project (gnu.org, 1983)
- Linux and the GNU System e GNU/Linux FAQ (gnu.org)
- History of Linux (Wikipedia)
- Minix (Wikipedia)
- Tanenbaum–Torvalds debate (Wikipedia)
- Linux's real birthday (Linuxiac), com o comentário do Makefile
- Linux, seção Trademark (Wikipedia)
- The Linux Mark (Linux Foundation, conferido em 5/11/2026)
- Linus-linux.ogg (Wikimedia Commons)
- Git (Wikipedia)


